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Empatou com Marrocos, jogou mal no primeiro tempo, e a primeira pergunta que ecoou em todo grupo de WhatsApp do país não foi sobre o time. Foi sobre um garoto que não saiu do banco. Cadê o Endrick? Por que o Ancelotti não colocou o moleque? E aqui vai uma provocação que talvez ninguém queira ouvir no meio da empolgação da Copa: e se a vontade desesperada de ver o Endrick em campo for justamente o sintoma da doença que o Ancelotti foi contratado para curar?

Vamos com calma, porque o assunto é inflamável. Ninguém aqui está dizendo que o Endrick é ruim. Pelo contrário. O menino fez gol na Inglaterra, na Espanha, no México e no Egito em pouquíssimos minutos com a camisa da Seleção. É decisivo, é raça, é o tipo de talento que faz a gente levantar do sofá. O ponto não é o jogador. O ponto é a gente.

O torcedor brasileiro foi criado para acreditar que o próximo craque resolve tudo. Que diante de um jogo travado, a solução é botar mais um gênio em campo e esperar a mágica acontecer. É o nosso vício mais antigo e mais bonito: a fé no indivíduo acima do coletivo. Só que esse mesmo vício é o que nos custou Copas inteiras. Foi a seleção das individualidades que tomou 7 a 1 dentro de casa. Foi a coleção de craques sem função coletiva que voltou mais cedo de torneios que a gente jurava que ia ganhar.

E aí chega um italiano, campeoníssimo, e faz exatamente o que esperamos de um treinador europeu de elite. Ele olha para o Endrick e enxerga o que a gente se recusa a ver: que talento, sozinho, não basta. Que ele quer disciplina tática, participação sem a bola, entendimento de função, regularidade. Ele bancou o Igor Thiago, que foi artilheiro na Inglaterra, e deixou claro que tem Matheus Cunha e outros na frente nessa disputa. Não por implicância. Por critério. A pergunta incômoda é: a gente contratou o Ancelotti para europeizar a nossa mentalidade e agora reclama quando ele pensa como europeu?

Tem uma ironia deliciosa nessa história, aliás. Quem saiu em defesa do treinador foi o Ronaldo. O Fenômeno. O cara que estourou adolescente, que era o próprio talento bruto em pessoa, o oposto de qualquer cautela tática. Se tem alguém com autoridade para dizer "deixa o moleque entrar", é ele. E mesmo assim ele disse: o garoto está pronto, mas está competindo com grandes, e estamos bem servidos. Quando até o Ronaldo prega paciência, talvez o problema não seja a paciência do Ancelotti. Talvez seja a nossa pressa.

Agora, o outro lado, porque debate bom tem dois. Existe um limite para essa paciência toda. Futebol também se ganha com coragem, com a ousadia de jogar um trunfo quando o jogo pede. O Brasil jogou mal e tinha no banco um cara que faz gol contra Espanha e Inglaterra. Em algum momento, prudência demais vira covardia. E se o saldo de gols decidir o grupo, como o próprio Ronaldo alertou, não dá para sobrar craque no banco enquanto o time patina. Tem hora que o sistema tem que abrir espaço para o talento, e não o contrário.

Então fica a provocação para vocês. O Ancelotti está certo em segurar o Endrick e impor uma mentalidade que sempre nos faltou, ou está repetindo o erro europeu de sufocar justamente aquilo que nos torna o Brasil? A gente quer ser disciplinado como os outros ou ousado como sempre fomos? E a pergunta que vale a discussão toda: o problema é o Ancelotti não colocar o Endrick, ou é a gente não conseguir viver sem procurar um salvador em campo? Eu tenho a minha resposta. Quero ler a sua.

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